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DOYLE, Arthur Conan – História do Espiritismo, A

O Profeta da Nova Revelação

Andrew Jackson Davis foi um dos homens mais notáveis de que temos uma informação exata.Nascido em 1826 nas margens do Hudson, sua mãe era uma criatura deseducada, com tendências visionárias aliadas à superstição vulgar; seu pai era um borracho, trabalhador em couros.Escreveu detalhes de sua própria infância num livro curioso: “A Vara Mágica”, que nos revela a vida primitiva e dura das províncias americanas na primeira metade do século passado.O povo era rude e deseducado, mas o seu lado espiritual era muito vivo: parecia estar sempre pronto para alcançar algo novo.Foi nesses distritos rurais de Nova York que, no espaço de poucos anos, se desenvolveram o Mormonismo e o Espiritismo.

Jamais houve um rapaz com menos disposições favoráveis do que Davis.Era fraco de corpo e pobre de mente.Fora dos livros da escola primária, apenas se lembrava de um livro que sempre lia até os dezesseis anos de idade.Entretanto, naquela criatura mirrada dormiam tais forças espirituais, que antes dos vinte anos tinha escrito um dos livros mais profundos e originais de filosofia jamais produzidos.Poderia haver mais clara prova de que nada tinha vindo dele mesmo e de que não passava de um conduto, através do qual fluía o conhecimento daquele vasto reservatório que dispõe de tão incompreensíveis dispositivos?O valor de uma Joanna D'Arc, a santidade de uma Tereza, a sabedoria de um Jackson Davis, os poderes supranormais de um Daniel Home, tudo vem da mesma fonte.

Nos seus últimos anos de infância começaram a se desenvolver os poderes psíquicos de Davis.Como Jeanne d*Arc, ouvia vozes no campo – vozes gentis que lha davam bons conselhos e conforto.À clarividência seguiu-se a clariaudiência.Por ocasião da morte de sua mãe, teve uma notável visão de uma casa muito amável, numa região brilhante, que imaginou ser o lugar para onde sua mãe tinha ido.Entretanto, sua completa capacidade foi despertada por uma circunstância: veio à sua aldeia um saltimbanco que exibia as maravilhas do mesmerismo.Fez uma experiência com Davis e também com muitos outros jovens rústicos que quiseram provar aquela sensação.Logo foi constatado que Davis possuía notável poder de clarividência.Estes não foram desenvolvidos pelo adepto do mesmerismo, mas por um alfaiate local, um certo Livingstone, que parece ter sido um pensador avançado.Ele ficou tão intrigado com os dons do seu sensitivo que abandonou o seu próspero negócio e devotou todo o seu tempo ao trabalho com Davis, empregando a sua clarividência no diagnóstico de doenças.Davis havia desenvolvido essa força, comum entre os psiquistas, de ver sem olhos, inclusive aquelas coisas que não podiam ser vistas pela visão humana.À princípio, o dom era usado como uma espécie de divertimento, na leitura de cartas e relógios de uma assistência rústica, tendo o sensitivo os olhos vendados.

Neste caso, qualquer parte do corpo pode exercer a função de ver.A razão disso talvez seja que o corpo etéreo ou espiritual, que possui os mesmos órgãos que o físico, este total ou parcialmente desprendido e registre a impressão.Desde que pode tomar tal atitude, ou andar à volta, pode ver de qualquer ponto.É uma explicação para casos como o que o autor encontrou no Norte da Inglaterra, onde Tom Tyrrell, o famoso médium,costumava andar à volta da sala, olhando os quadros, de costas para as paredes onde os mesmos estavam pendurados.Se em tais casos os olhos etéreos vêm uma réplica etérea dos mesmos, temos um dos muitos problemas que deixamos à posteridade.

Livingstone, a principio, usou Davis para diagnósticos médicos.Descrevia como o corpo humano se tornava transparente aos seus olhos espirituais, que pareciam funcionar do centro de sua testa.Cada órgão aparecia claramente e com uma radiação especial e peculiar, que se obscurecia em caso de doença.Para a mentalidade médica ortodoxa, com a qual muito simpatizava o autor, tais poderes são passíveis de abrir uma porta para o charlatanismo e ainda o inclina a admitir que tudo quanto foi dito por Davis tivesse corroborado pela própria experiência de Mr. Bloomfield de Melbourne, que descreveu ao autor a admiração de que ficou possuído, quando sua força se manifestou subitamente, na rua, lhe mostrando detalhes anatômicos das pessoas que andavam à sua frente.Tão bem verificados Têm sido tais poderes, que não é raro verem-se médicos tomar clarividentes aos seus serviços, como auxiliares para o diagnóstico.Diz Hipócrates: “A alma vê de olhos fechados as afecções sofridas pelo corpo”.Assim, ao que parece, os antigos sabiam algo a respeito de tais métodos.As observações de Davis não se circunscreviam aos que se achavam em sua presença; sua alma ou corpo etéreo podia libertar-se pela ação magnética de seu empresário e ser mandada como um pombo-correio, na certeza de que regressaria com a informação desejada.Além da missão humanitária em que geralmente se empenhava, às vezes vagava livremente; então descrevia, em magníficas passagens, como via a Terra translúcida, abaixo dele, com os grandes veios de depósitos minerais, como que brilhando através de massas de metal fundido, cada qual com a sua radiação peculiar.

É notável que nessa fase inicial da experiência psíquica de Davis, não tivesse ele a recordação daquilo que tinha visto em transe.Contudo, essa recordação era registrada no seu subconsciente e, posteriormente, a recuperava com clareza.Com o tempo tornou-se uma fonte de informações para os outros, posto que ficasse ignorada para si próprio.

Até então o seu desenvolvimento se havia processado de maneira não incomum e que podia ser comparado com a experiência de qualquer estudioso de psiquismo.Foi quando ocorreu um episódio inteiramente novo e que é minuciosamente descrito na sua autobiografia.Em resumo, os fatos foram os seguintes: na tarde de 6 de março de 1844, Davis foi subitamente tomado por uma força que o fez voar da pequena cidade de Poughkeepsie, onde vivia, e fazer uma pequena viagem no estado de semitranse.Quando voltou à consciência, encontrava-se entre montanhas agrestes e aí, diz ele, encontrou dois anciãos, com os quais entrou em íntima e elevada comunhão, um sobre medicina e outra sobre moral.Esteve ausente toda a noite e, quando indagou de outras pessoas na manhã seguinte, disseram-lhe que tinha estado nas Montanhas de Catskill, há cerca de quarenta milhas de casa.A história tem todas as aparências de uma experiência subjetiva, um sonho ou uma visão, e ninguém hesitaria em considera-la como tal, se não fosse o detalhe de seu regresso e da refeição que tomou a seguir.Uma alternativa seria que o vôo para as montanhas fosse uma realidade e, as entrevistas, um sonho.Diz ele que, posteriormente identificou seus dois mentores como sendo Galeno e Swedenborg, o que é interessante, por ser o primeiro contato com os mortos, por ele próprio reconhecidos.Todo o episódio pareceu visionário e não teve qualquer ligação com o notável futuro desse homem.

Davis verificou maiores forças a se agitarem em si mesmo e foi avisado de que, quando lhe faziam perguntas sérias, enquanto se achava em transe “mesmérico”, sempre respondia: “Responderei a isto em meu livro”.Aos dezenove anos sentiu chegado o momento de escrever.A influência magnética de Livingstone, por isso ou por aquilo, parece que não era adequada para tal fim.Então foi escolhido o Dr. Lyon como novo magnetizador; este abandonou o consultório e foi a Nova York com o seu protegido, onde procurou o Reverendo William Fishbough, convidando-o para servir de secretário.Parece que essa escolha intuitiva era justificada, pois este logo abandonou o seu trabalho e aceitou o convite.Então, preparado o aparelho, Lyon submetia diariamente o jovem a transes magnéticos e suas manifestações eram registradas pelo fiel secretário.Não havia dinheiro nem publicidade no assunto, de modo que nem o mais cético dos críticos poderia deixar de admitir que a ocupação e os objetivos desses três homens constituíssem um maravilhoso contraste com a preocupação material de fazer dinheiro que os rodeava.Eles buscavam o mais além.E que é o que podia fazer o homem demais nobre?Há que levar em conta que um tubo não pode conter mais do que lhe permite o seu diâmetro.O diâmetro de Davis era muito diferente de Swedenborg.Cada um recebia conhecimento quando num estado de iluminação.Mas Swedenborg era o homem mais instruído da Europa, quando Davis era um jovem tão ignorante quanto se podia encontrar no Estado de Nova York.A revelação de Swedenborg talvez fosse maior, posto que, muito provavelmente, pontilhada por seus próprios conhecimentos.A revelação de Davis era, comparativamente, um milagre maior.

O Dr. George Bush, professor de hebraico na Universidade de Nova York, uma das testemunhas quando eram recebidas as orações em transe, assim escreve: : “Afirmo solenemente que ouvi Davis citar corretamente a língua hebraica em suas palestras, e demonstrar um conhecimento de geologia muito mais admirável numa pessoa da sua idade, ainda quando tivesse devotado anos a esse estudo;discutia, com grande habilidade, as mais profundas questões de arqueologia histórica e bíblica, de mitologia, da origem e das afinidades das línguas, da marcha da civilização entre as várias nações da Terra, de modo que faziam honra a qualquer estudante daquela idade, mesmo que, para as alcançar, tivesse consultado todas as bibliotecas da cristandade;realmente, se ele tivesse adquirido todas as informações que externa em sua conferência, não em dois anos, desde que deixou o banco de sapateiro, mas em toda a sua vida, com a maior assiduidade no estudo, nenhum prodígio intelectual de que o mundo tem notícia, por um instante seria comparável com este, muito embora nenhum volume, nenhuma página tenha sido publicada”.

Eis um admirável retrato de Davis na época.E Bush chama-nos a atenção para o seu equipamento, quando diz: “A circunferência de sua cabeça é demasiadamente pequena. Se o tamanho fosse a medida da força, então a capacidade mental desse jovem seria limitadíssima. Os pulmões são fracos e atrofiados. Não viveu num ambiente refinado; suas maneiras eram grosseiras e rústicas. Não tinha lido senão um livro. Nada conhece de gramática ou das regras de linguagem nem esteve em contato com pessoas dos meios literários ou científicos”.

Tal era o moço de dezenove anos, do qual jorrava então uma catadupa de palavras e de idéias, abertas à crítica, não por sua simplicidade, mas por serem demasiado complexas e envoltas em termos científicos, conquanto sempre com um fio consistente de raciocínio e de método.

Vem a propósito falar do subconsciente, embora isto geralmente tenha sido tomado como idéias aparentemente recebidas e submergidas.Se, por exemplo, o desenvolvido Davis pudesse recordar o que tinha acontecido em seus transes durante os seus dias de não desenvolvimento, teríamos um claro exemplo de emergência daquelas impressões sepultadas.Mas seria abusar das palavras falar de um inconsciente quando tratamos com alguma coisa que, por meios normais, jamais poderia alcançar qualquer extrato da mente, consciente ou inconsciente.Eis o começo da grande revelação psíquica de Davis, que se derramou, ocasionalmente, por muitos livros, todos compreendidos pelo nome de “Filosofia Harmônica”.Por sua natureza e por sua posição nos estudos psíquicos, deles trataremos noutro lugar.

Nessa fase de sua vida, pretende Davis haver estado sob a influência direta da entidade que posteriormente identificou como sendo Swedenborg – nome muito pouco familiar naquele tempo.De vez em quando recebia um aviso, pela clarividência, “para subir à montanha”. Essa montanha se acha situada na outra margem do Hudson, oposta a Poughkeepsie.Aí na montanha pretende ele que se encontrava a conversava com uma figura venerável.Parece que não houve qualquer indício de materialização e o incidente não teve analogia em nossa experiência psíquica, salvo se – e temos que falar com toda a reverência – também o Cristo subiu a um monte e entrou em comunhão com as formas de Moisés e de Elias.

Nisso a analogia parece completa.

Não parece que Davis tenha sido absolutamente um homem religioso, no sentido comum e convencional, embora se achasse saturado de forças verdadeiramente espirituais.Seus pontos de vista, até onde é possível acompanha-lo, eram de crítica franca em relação à revelação bíblica e, na pior das hipóteses, honesto, honrado, incorruptível, ansioso pela verdade e consciente de sua responsabilidade pela sua divulgação.

Durante dois anos, seu subconsciente continuou ditando o livro sobre os segredos da Natureza, enquanto o consciente Davis adquiriu um pouco de auto-educação em Nova York, com ocasionais visitas restauradoras à Poughkeepsie.Tinha começado chamar a atenção de algumas pessoas sérias e Edgard Allan Poe era um de seus visitantes.Seu desenvolvimento psíquico continuava e antes dos vinte e um anos tinha chegado ao ponto de não mais necessitar de alguém para cair em transe; realizava-o sozinho.Por fim, sua memória subconsciente se tinha aberto e ele se tornou capaz de abarcar o largo alcance de suas experiências.Foi então que se assentou ao lado de uma senhora agonizante e observou todos os detalhes da partida da alma; sua magnífica descrição nos dá no primeiro volume de “A Grande Harmonia”.Conquanto sua descrição tenha aparecido numa separata, não é tão conhecida quanto deveria sê-lo.Um pequeno resumo deve ser interessante para o leitor.

Começa ele por uma consoladora reflexão sobre os vôos de sua própria alma, que eram morte em todos os sentidos, salvo quanto à duração, e lhe haviam mostrado que a experiência era “interessante e deliciosa” e que aqueles sintomas que parecem sinais de sofrimento não passam de reflexos inconscientes do corpo e não têm significação.Diz então, como, havendo-se jogado antes naquilo que se chama de “Condição Superior”, havia observado as etapas do lado espiritual.“O olho material vê apenas o que é material, e o espiritual o que é espiritual”.Como, porém, tudo tem uma contra-partida espiritual, o resultado é o mesmo.Assim, se um Espírito vem a nós, não é a nós que ele vê, mas o nosso corpo etéreo, que é, aliás, uma réplica do nosso corpo material.

Foi esse corpo etéreo que Davis viu emergindo do envoltório de protoplasma da pobre moribunda, que finalmente ficou vazio no leito, como a enrugada crisálida, depois que a borboleta se libertou.O processo começou por uma extrema concentração no cérebro, que

se foi tornando cada vez mais luminoso, enquanto as extremidades se tornavam escuras.É provável que o homem nunca pense tão claramente ou seja tão intensamente cônscio quanto depois que todos os meios de indicação de seus pensamentos o abandonaram.Então o novo corpo começa a emergir, a começar pela cabeça.Em breve se acha completamente livre, de pé ao lado de seu cadáver, com os pés próximos à cabeça e com uma faixa luminosa vital, correspondente ao cordão umbilical.Quando o cordão se rompe, uma pequena porção é absorvida pelo cadáver, assim o preservando da imediata putrefação.Quanto ao corpo etéreo, leva algum tempo até adaptar-se ao novo ambiente, até passar pela porta aberta.“Eu a vi passar para a sala contígua, através da porta e da casa, erguer-se no espaço... Depois que saiu da casa, encontrou dois Espíritos amigos, da região espiritual que, depois de um terno reconhecimento e de um entendimento entre os três, da mais graciosa das maneiras, começou a subir obliquamente pelo envoltório etéreo do nosso globo.Marchavam juntos tão naturalmente, tão fraternalmente, que me custava imaginar que se librassem no ar: pareciam subir pela encosta de uma montanha gloriosa e familiar.Continuei a olha-los, até que a distância os fechou aos meus olhos”.

Tal a visão da morte, tal qual a percebeu Andrew Jackson Davis – muito diferente daquela treva horrível que por tanto tempo obsidiou a imaginação humana.Se isto é verdade, podemos voltar nossas simpatias para o Dr. Hodgson e a sua exclamação: “Custa-me suportar a espera”. Mas é verdade? Apenas devemos dizerque há muita evidência a corrobora-la.

Muitas pessoas que caem em estado cataléptico, ou que estiveram tão doentes que chegaram ao estado de coma, trouxeram impressões muito concordes com a descrição de Davis, posto que outras tivessem voltado com o cérebro inteiramente vazio.

Quando em Cincinnati, em 1923, o autor esteve em contato com uma tal Mrs. Monk, que tinha sido, pelos médicos, dada como morta, e que durante cerca de uma hora havia experimentado a vida “post-mortem”, antes que um capricho da sorte a devolvesse à vida, ela escreveu um pequeno relato de sua experiência, no qual recorda uma vívida lembrança de ter saído do quarto, exatamente como descreve Davis, e do fio prateado que continuava unindo sua alma viva ao seu corpo comatoso.Um notável caso foi publicado na revista “Light”, de 15 de março de 1922, no qual cinco filhas de uma senhora agonizante, todas clarividentes, viram e descreveram o processo da morte de sua mãe.Aqui também a descrição do processo era muito semelhante àquele descrito, posto haja algumas diferenças entre este último e outros casos, para sugerir que a seqüência dos acontecimentos nem sempre é regida pelas mesmas leis. Outra variante de extremo interesse encontra-se num desenho feito por uma criança médium, que pinta a alma deixando o corpo, e é descrito no trabalho de Mrs. De Morgan, “Da Matéria Ao Espírito”.Este livro, de prefácio pelo célebre matemático Prof. De Morgan, é um dos trabalhospioneiro no movimento espírita na Grã-Bretanha.Quando se pensa que foi publicado em 1863, sente-se um peso no coração pelo sucesso daquelas forças de obstrução, tão fortemente refletidas na imprensa, que tem conseguido durante tantos anos colocar-se entre a mensagem de Deus e a raça humana.

A força profética de Davis apenas pode ser desconhecida pelos céticos que ignoram os fatos.Antes de 1856 profetizou detalhadamente o aparecimento do automóvel e da máquina de escrever.Em seu livro “Penetralia”, lê-se o seguinte: - Pergunta: “Poderá o utilitarismo fazer descobertas em outra direção da locomoção?”

- "Sim: buscam-se nestes dias carros e transportes coletivos que correrão por estradas rurais – sem cavalos, sem vapor, sem qualquer força natural visível – movendo-se com alta velocidade e com muito mais segurança do que atualmente.Os veículos serão acionados por uma estranha, bonita e simples misturas de gases aquosos – tão facilmente condensados, tão simplesmente inflamados e tão ligados à máquina, que de certo modo se assemelham as nossas, que ficarão ocultos e serão manejados entre as rodas da frente.Tais veículos evitarão muitos embaraços atualmente experimentados pela gente que vive em regiões pouco povoadas.O primeiro requisito para essas locomotivas de chão serão boas estradas, nas quais, com a sua máquina, sem cavalos, a gente pode viajar com muita rapidez.Esses carros me parecem de construção pouco complicada”.

- A seguir, perguntaram: - “Percebe algum plano que permita acelerar a maneira de escrever?”.

- “Sim. Quase me sinto inclinado a inventar um psicógrafo automático, isto é, uma alma escritora artificial.Pode ser construída assim como um piano, com uma série de teclas, cada uma para um som elementar; um teclado mais baixo para fazer uma combinação.Assim, em vez de tocar uma peça de música, pode-se escrever um sermão ou um poema”.

Do mesmo modo, respondendo a uma pergunta relativa ao que era então chamado “navegação atmosférica”, sentiu-se profundamente impressionado “porque o mecanismo necessário – para atravessar as correntes de ar, de modo que se possa navegar tão fácil, segura e agradavelmente quanto os pássaros – depende de uma força motriz.Essa força virá.Não só acionará a locomotiva sobre os trilhos, e os carros na estrada, mas também os veículos aéreos que atravessarão o céu, de país para país”.

O aparecimento do Espiritismo foi predito nos seus “Princípios da Natureza”, publicado em 1847, onde diz:

“É verdade que os Espíritos se comunicam entre si, quando um está no corpo e outro em esferas mais altas – e, também, quando uma pessoa em seu corpo é inconsciente do influxo e, assim não pode se convencer do fato.Não levará muito tempo para que essa verdade se apresente como viva demonstração dessa era, ao mesmo tempo, que o íntimo dos homens será aberto e estabelecida a comunicaçãoespírita, tal qual a desfrutam os habitantes de Marte, Júpiter e Saturno”.

Nesta matéria os ensinamentos de Davis eram definitivos, embora se deva admitir que uma boa parte de seu trabalho é vaga e difícil de ler, porque desfigurada pelo emprego de vocábulos longos e ocasionalmente inventados por ele.Entretanto, são de um alto nível moral e intelectual, e pode ser melhor descrito como um atualizado Cristianismo, com a ética do Cristo aplicada aos problemas modernos e inteiramente coberto de quaisquer traços de dogmas.A “Religião Documentária”, como a chama Davis, em sua opinião absolutamente não é uma religião.Tal nome só deve ser aplicado ao produto pessoal da razão e da espiritualidade.Tal a linha geral do ensino, misturado com muitas revelações da Natureza exposto em sucessivos livros da “Filosofia Harmônica”, a que se seguiram “Revelações Divinas da Natureza” e que tomaram os anos seguintes de sua vida.Muitos de seus ensinos apareceram num jornal estranho, chamado “Univercoelum” e em conferências proferidas para dar a conhecer as suas revelações.

Em suas visões espirituais, Davis viu uma disposição do universo que corresponde aproximadamente à que foi apresentada pó Swedenborg, adicionada pelo ensino posterior dos espíritos e aceita pelos espíritas.Viu uma vida semelhante à da Terra, uma vida que pode ser chamada semimaterial, com prazeres e objetivos adequados à nossa natureza, que de modo algum se havia transformado pela morte.Viu estudo para estudiosos, tarefas geniais para os enérgicos, arte para os artistas, beleza para os amantes da Natureza, repouso para os cansados.Viu fases graduadas da vida espiritual, através das quais, lentamente, se sobe para o sublime e para o celestial.Levou a sua magnífica visão acima do presente universo e o viu como este uma vez mais se dissolvia numa nuvem de fogo, da qual se havia consolidado e, uma vez mais se consolidado para formar o estágio no qual uma evolução mais alta teria lugar e onde uma classe mais alta se iniciaria, do mesmo modo que algures, a classe mais baixa.Viu que esse processo se renovava muitas vezes, cobrindo trilhões de anos e sempre trabalhando no sentido do refinamento e da purificação.Descreveu essas tarefas como anéis concêntricos em redor do mundo; mas como admite que nem o tempo nem o espaço são claramente definidos em suas visões, não devemos tomar a sua geografia muito ao pé da letra.O objetivo da vida é preparar para o adiantamento nesse tremendo esquema: e o melhor método para o progresso humano é livrar-se do pecado – não só dos pecados geralmente reconhecidos, mas também dos pecados do fanatismo, da estreiteza de vistas e da dureza, que são manchas especiais, não só na efêmera vida da carne, mas na permanente vida do Espírito.Para tal fim o retorno à vida simples, às crenças simples e à fraternidade primitiva se tornam essenciais.O dinheiro, o álcool, a luxúria, a violência e o sacerdócio – no seu limitado sentido – constituem os maiores empecilhos do progresso humano.

Há que admitir-se que Davis, até onde se pode acompanhar a sua vida, tenha vivido para suas idéias.Era muito humilde, mas daquela matéria de que são feitos os Santos.Sua autobiografia vai apenas até 1857, de modo que teria pouco mais de trinta anos quando a publicou.Mas dá uma descrição muito completa e por vezes muito involuntária de seu íntimo.Era muito pobre, mas justo e caridoso.Era muito sério, mas muito paciente na argumentação e delicado na contradita.

Fizeram-se as piores acusações que ele recorda com um sorriso de tolerância.Dá uma informação completa de seus dois primeiros casamentos, tão originais quanto tudo o mais a seu respeito, mas que apenas depõem em seu favor.Desde a data em que termina “A Vara Mágica”, parece que levou a mesma vida, alternando leitura e escrita, conquistando cada vez mais prosélitos, até que morreu em 1910, na idade de oitenta e quatro anos.Passou os últimos anos de sua vida como diretor de uma pequena livraria em Boston.O fato de a sua “Filosofia Harmônica” ter tido uma das quarenta edições nos Estados Unidos, constitui uma prova de que a semente que lançou com tanta constância, não caiu em terreno improdutivo.

Para nós o que é importante é o papel representado por Davis no começo da revelação espírita.Ele começou a preparar o terreno, antes que se iniciasse a revelação.Estava claramente fadado a associar-se intimamente com ela, de vez que conhecia a demonstração de Hydelsville, desde o dia em que ocorreu.De suas notas tomamos a passagem seguinte, que traz a data significativa de 31 de março de 1848:

“Esta madrugada um sopro quente passou pela minha face e ouvi uma voz suave e forte, dizer: Irmão, um bom trabalho foi começado – olha! Surgiu uma demonstração viva”.Fiquei pensando o que queria dizer semelhante mensagem.Era o começo do enorme movimento do qual participaria como profeta.Suas próprias forças do lado mental, eram supranormais, do mesmo modo que as físicas o são do lado material.Elas se completam.Era, até o extremo de sua capacidade, a alma do movimento, o único cérebro que tinha uma visão clara da mensagem, anunciada de maneira tão nova como estranha.Nenhum homem poderia receber aquela mensagem por inteiro, porque é infinita e cada vez se ergue mais alto, à medida que tomamos contato com seres mais elevados.Mas Davis a interpretou tão bem para os seus dias e para a sua geração que, mesmo agora, muito pouco pode ser adicionado às suas concepções.